Amar o caminho: aprendizados em uma aventura morro a cima

Estava a poucos metros no topo e vi aquele nevoeiro marcando presença. Ignorei.

Bem e com um ritmo bom, continuei como pude com a estratégia acordada mentalmente, pequenos passos, respirar fundo, olhar a paisagem, sentir o ar puro. Estar presente… A poucos metros do topo na prática não fica perfeito, respiro errado, dou passos grandes – ansioso pela chegada – e faço paradas ocasionais.

Chego no topo já preparado para eternizar aquele momento com o equipamentos em mãos e vejo o branco tomar conta de tudo. Uma massa densa que cobre toda os cânions próximos, os rios que passamos ao chegar na base, o vale e o que mais nossos olhos pudessem ver a distância. Tudo não passa de um grande branco. Como se estivéssemos flutuando em nuvens, como nos desenhos da infância…

Não posso negar uma leve frustração por não ver a beleza do local. Digo leve para deixar claro, que existe um avanço aqui. No passado seria uma frustração tão forte tanto quanto um soco certeiro no estômago. Aquele sentimento que dói. Naquele dia não, eu entendi o recado.

Mesmo entendendo gostaria de ter visto mais coisas…

Naquele exato momento que vi a paisagem sumindo atrás do branco e de maneira inconsciente tive 2 caminhos.

  1.  Se frustrar e deixar meu corpo tenso com isso. Esperar, ansioso por uma fresta para poder fazer minha filmagem.
  2.  Aceitar o que o universo mandou e curtir o momento, com uma pontinha de esperança de que veria mais coisas.

Escolhi a opção 2.

Amar o caminho

Foram mais de 3km de subida íngreme, entre tropeços, respiração rápida e escalaminhadas – onde é necessário usar mãos para se apoiar em subidas. Algumas paradas para se reunir com grupo no caminho.

Na trilha passada, Trilha do Rio do Boi, que contei aqui havia uma mistura de diálogo interno crítico e um medo de fazer feio. Se machucar, ficar para trás. Já nesse, mais preparado fisicamente, após meses fazendo crossfit, volêi e tudo mais, me senti com fôlego e preparado, ansioso para me desafiar.

Mas não é só o corpo que teve a preparação necessária. Após os 12km da Trilha do Rio do Boi, parei dias depois para escrever sobre e aprender com a experiência. Havia muita cobrança, muita crítica, muito mimimi. Superei isso. Vim preparado mentalmente para subir no topo, manter o ritmo e focar na experiência.

Amar o caminho. Depois de toda essa caminhada, que durou 1h45min, parei lá em cima no topo, sentei e relaxei o corpo. Cumpri meu papel e me permiti não pensar no branco naquele momento. Naquele momento era preciso de água, um rango e recuperar a respiração.

Poucos minutos depois, já estava apto para contemplar…

Além do silêncio

Não há nada mais impactante para mim nesses lugares do que o silêncio. Mesmo a paisagem mais exuberante que meus olhos já presenciaram não se comparam com o efeito do silêncio em mim. Sempre tive a solidão comigo, mesmo em lugares cheios, mas principalmente em momentos só meus. Somos bons amigos.

O silêncio apavora a mentes inquietas e preenche um espaço que muitos nem sabiam que existia. Para alguns pode até ser desconfortável, para mim é sinônimo de uma paz indescritível.

“Tão forte quanto o barulho estrondoso do silêncio no topo de uma montanha é o campo que crio comigo mesmo. Me sinto presente, conectado.” Fernando Rui

E nem só de montanhas se vive os conectados. Eu experimento isso em casa também. Não com tanto impacto e vislumbre, mas quanto mais pratico estar presente, mais me conecto…

Experimente aí…

Aventura como caminho para o Autoconhecimento

No canto direito a Pedra Branca. Tão longe e mesmo pequena olhando daqui…

Será que é um devaneio de minha parte relacionar um passeio desses com Autoconhecimento. Para mim, essas experiências nos ensinam pois ficamos nós com nós mesmos, por muito tempo. Sem o barulho de nossa mente consciente lembrando da discussão de ontem de noite ou então do preço absurdo do gás, que subiu de novo.

É uma metáfora completa para quem vive a experiência.

A preparação do início, caneleiras, água, comida e o que mais precisar levar. Preparação mental de como vou lidar com uma subida íngreme. Só nessa etapa já temos nosso diálogo interno nos dando sinais.

Depois vem a subida e todo o esforço físico gerado. Aqui ficamos com nós mesmos… Sem falar muito para não prejudicar a respiração. Vem mais diálogo interno, “só mais um passo” ou “puta que pariu, não acaba nunca essa merda”. O preço do gás aqui não se manifesta…

Chegando no topo, muda toda a experiência novamente. Dá aquele alívio imediato. O corpo relaxa e começa a cair a ficha do que você conquistou. Para alguns é só uma subida, mas para você, tem um simbolismo a mais, é uma superação foda. Destrói seu medo e insegurança que sentiu lá embaixo enquanto alimenta diretamente suas crenças internas, fortalece sua identidade.

“Eu conquistei algo grandioso! Eu sou <insira aqui seu palavrão favorito para descrever essa conquista>”

E por fim, a descida... Mais esforço físico, mas agora com uma sensação interessante: uma mistura de gostinho de vitória com o cansaço físico. A experiência ainda não acabou, é preciso cuidado, atenção. A volta geralmente estamos mais dispersos e, principalmente em descidas, pode dar acidentes. Mesmo assim, sua mente está ali com você, vivenciando tudo aquilo. O super esforço da subida, a conquista, o descanso e agora os últimos passos. Dá para aprender muito ouvindo nossa intuição nesses momentos.

Eu me deparei na descida com um momento só meu. Parei por alguns segundos, deixando o grupo avançar. Olhei aquela paisagem linda – sem nevoeiro nessa altura – fechei as mãos como para representar minha força, braços esticados, fechei os olhos e me senti aberto, presente, conectado… E assim, mantive aquele momento eternizado em minhas lembranças.

A qualquer momento agora posso buscar um lugar só meu, fechar os olhos e voltar lá, reviver essa experiência. Ver, ouvir e sentir aquele exato momento, em detalhes…

Viva suas experiências

Amigos que subiram comigo em pleno carnaval. É ou não uma boa forma de aproveitar o carnaval?

Entre o silêncio, a metáfora do esforço e da recompensa, a preparação, a amizade e parceria, as belezas naturais e tudo mais que envolve uma aventura dessas, não sei com qual consigo representar o que esse movimento significado… É, verdadeiramente, uma EXPERIÊNCIA!

Como sempre, fico por aqui em busca de outra grande conquista minha, mas torcendo para você viver as suas, seja na montanha ou dentro de você.

Nas palavras finais de um aventureiro, em forma de resumo, sugiro a você:

“Focar no seu objetivo mas amar o caminho, criar e viver suas aventuras e, claro, ouvir o silêncio.”

No vídeo algumas imagens que fiz durante a subida. E aí? Vamos na próxima?

2 Comentários

  1. Ana Faria

    Olá Fernando! Adorei este artigo e também o anterior da viagem até Portugal. Já não me lembrava que vinha até cá. Obrigada pela partilha e pelas mensagens. Em Abril eu vou começar uma nova grande aventura na Inglaterra e foi bom ler estes artigos porque me fizeram sentir mais preparada para dar o passo em frente para o desconhecido.
    Obrigada!

    Responder

    1. Oi Ana, que boa sua presença aqui. Fico feliz que tenha gostado dos textos. Essas experiências em viagens são sempre ricas e de grande aprendizado… Desejo muitos aprendizados nessa sua nova aventura…

      Abração!

      Responder

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